quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Narração - "Um lugar solitário"

O texto a seguir não influencia religião, é apenas fictício. 
  "A maior crueldade do Universo não é a fome que crianças passam ou a violência das ruas, ou o frio que milhões de desabrigados sentem. 
   A maior crueldade do Universo é a morte; a necessidade dele de validar vidas. 
   Você nasce, morrendo. A cada vez que respira, a cada segundo que se passa e a cada piscadela, você está caminhando, direta e indiretamente, para a morte. 
   Não previ a minha morte, não a temi. Nunca soube quando ela iria chegar. Desejei-a como uma pessoa que está no deserto deseja água. 
   Medindo em anos humanos, minha vida não foi longa. Mas minha alma pode lhe afirmar que tudo que um dia eu passei fez com que meus anos triplicassem. Experimentei de gostos distintos e passei por tudo que uma pessoa normal da minha idade não passaria. Vivenciei situações que nunca esquecerei. Presenciei cenas amargas e senti dores inconfundíveis. Quis rasgar meu peito e deixar voar todas as mágoas acumuladas ao longo dos meus anos. Meu coração estava pesado; toneladas de desventuras. Quem eu poderia ser, se não uma frágil obra inválida do Universo? As lágrimas que um dia chorei não foram de uma lutadora. O fracasso dominava minha breve existência. 
   A morte, uma vez que te pega, te deixa sem saída. E o Universo é o lugar mais solitário para morrer, lhe garanto. 
   Lembro detalhadamente do segundo do crash. O trânsito no centro da cidade estava péssimo. Tinham muitos carros em filas ao meu redor e algumas pessoas estressadas passavam por entre os automóveis. Algumas falavam ao celular, outras carregavam pesadas mochilas ou maletas. O dia estava nublado, diferentemente dos outros dias da semana. Eu estava presa nesse engarrafamento, uma mão segurava o volante, a outra levava o celular até o ouvido. 
   Meus pais discutiam, como sempre. Algo que eu dissera influenciara os dois a começar essa discussão. 
   - Você deveria se importar! - gritava mamãe do outro lado da linha. 
   - O quê? Isso não é minha obrigação - gritava papai de volta. 
   - Você me deve pelo menos isso. 
   - Não, não lhe devo nada. 
   Suas vozes martelavam na minha cabeça, as ameaças que vieram logo a seguir me davam náuseas. O trânsito finalmente andou e eu já estava conseguindo atravessar uma avenida larga. Quando eles finalmente voltaram a ser eles mesmos ao telefone, meus olhos se chocaram com a visão perturbadora. 
   Em uma fração de segundos, meus olhos se fecharam bruscamente e meu corpo falecia de dor. A escuridão tomou conta de minha visão e eu senti, naquele momento, a falha do meu corpo. E enquanto tudo parava dentro de mim, depois de longos minutos, minha mente relembrou cada passo de minha vida. Morria e assistia a um filme da minha vida. Todos aqueles momentos em que desejei apagar da minha memória, toda uma vida, a minha vida, diante dos meus olhos.
   Nunca antes senti tanta dor. Fisicamente e psicologicamente. Não tinha plena consciência de que aquilo era a morte me arrastando. Apenas senti meus órgãos falhando, meu coração desestabilizando, meus ossos se colidindo, enquanto minhas antigas falhas quebravam-me torturadamente. 
   A dor me deixara dormente. Estava entorpecida. 
   Depois de todo aquele filme acabar me encontrei olhando para meu corpo ferido. Sim, eu me via ali, sentada, dentro de um carro destruído por um caminhão enorme. Havia sangue por toda parte e constatei então que a morte é o momento mais importante de um ser. 
   Nascemos para morrer e o momento que tanto esperei havia chegado. Caminhei até a morte, onde tudo parecia ter acabado. Contudo, não acabara. 
   Corria em direção as pessoas que se acumulavam ao redor do acidente, mas nenhuma delas me via; enxergavam somente o corpo ferido. Quem poderia me notar, afinal? Eu era só uma alma que vagava pelo lugar de sua morte, uma alma desesperada, cheia de sentimento de culpa. 
   Em minha memória ainda humana, recordava de informações que eu lera em algum lugar. Que quando morremos, ficamos ligados a nossa antiga vida, pois a alma ainda não cicatrizara. Verdade. Não existia nenhuma luz para eu seguir, nenhuma escuridão. Eu era minha própria inimiga porque ainda doía, o ferimento não se curara. 
   E então vaguei pela vida deles. Dos meus pais. Não sabia o que eles estavam sentindo, portanto a raiva foi o único sentimento que eu tinha enquanto os assistia. Odiei a mim mesma em todos os segundos, mas odiei a eles, principalmente. 
   No começo não lutei contra nenhum dos sentimentos ruins, apenas me deixei levar. Eles falavam sobre mim o tempo inteiro, discutiam, lembravam de momentos oportunos que vivemos juntos. Eu sabia que existia uma pitada de hipocrisia em tudo que meus pais falavam. Minha mãe não estava mais apaixonada por meu pai e ele amava outra pessoa; eu sempre soube, nunca entendi o porquê de ainda estarem juntos. Então, citaram ela. Minha irmã. Perdi totalmente o controle. E tudo em mim só doía. Ver tudo aquilo me dilacerava. Não sabendo mais se existiam dias e noites, fui existindo sem tempo cronológico. A cada verdade, eu me machucava e eu não conseguia mais lidar. 
   Morri jovem. Enterraram meu corpo na terra e todos os meus segredos foram enterrados juntos. Tudo que eu sabia, todas as palavras que guardei pra mim durante todos aqueles anos. As informações que descobrira enquanto viva se viravam contra mim. A aflição tinha que ter um fim. Não conseguia mais suportar os fragmentos. E agora era hora de me libertar da agonia. 
   Observei mamãe e papai deitados na mesma cama, dormindo, suas expressões eram de paz. Murmurei, passando a mão nos cabelos bagunçados da minha antiga mãe, sabendo que nunca me ouviriam: 
   - Queridos, desculpem-me por tudo. Por tudo mesmo. Sei que em algum momento houve amor e tranquilidade. Sei que muitas coisas saíram controle. E eu vos perdôo pela falta de carinho. Em algum momento devem ter tentando, mas infelizmente, falharam. Peço perdão pela morte de minha irmã. Só há agora uma pessoa viva que sabe da verdade. E tenho certeza que essa verdade não morreu comigo ou com ela. Tudo vai vir a tona em algum ponto e só espero que não fiquem atormentados ou bravos com meu ato. A matei. Era um acidente, mas a matei e me arrependo amargamente. Para vocês, o amanhã virá e um novo sol vai surgir. Cuidem-se, pois estou me libertando agora. Lutem contra toda dificuldade, não deixem nunca mais que os obstáculos lhes impeçam de ir para frente. Sempre serei aquela garotinha que corria no jardim atrás das borboletas e não aquela criatura amarga que me tornei apos a morte de minha irmã. Não se lembrem dos maus momentos que tive na escola, nem com minha falta de preocupação e comprometimento comigo mesma. A morte muda as pessoas. E sempre lhes amarei. Eternamente sua, Alice." - Por Diandra.

Um comentário:

  1. Como eu disse, o texto é bastante interessante!
    Entretanto, deve rever a ortografia no título:
    Não seria "lugar"?
    Estou gostando!
    Ariana

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